Utopia e luta: concreto e cultura

Era de manhã quando cheguei à entrada do Utopia e Luta, uma ocupação urbana bem no coração de Porto Alegre, onde vivem mais de 50 famílias desde 2005, ocasião do Primeiro Fórum Social Mundial, durante o qual o prédio abandonado do INSS por 18 anos foi ocupado para que cumprisse sua função social como habitação popular.

Pelos grafites libertários e pelas bandeiras pretas e vermelhas foi fácil reconhecê-lo, no final da escadaria da Borges, depois da ‘lomba’.

Na chegada, reparei em um grande número de moradores de rua que se adensavam e viviam ali na frente, sob a marquise do prédio. Papelões, roupas, trapos, colchões. Um companheiro me recebeu e passei a manhã conhecendo o espaço da ocupação, seus núcleos produtivos (padaria, serigrafia, horta hidropônica e plantas no terraço), e alguns moradores e moradoras.

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Na saída, reparei novamente nas pessoas morando ali em situação de rua, e perguntei como era a relação com elas e porque não eram integradas à ocupação. O compa que estava comigo disse que elas dormiam ali pois os moradores e moradoras da ocupação eram os únicos que entendiam, e os respeitavam. Em qualquer outro lugar do centro onde se instalavam eram violentamente rechaçados pela população local (apoiada pela polícia, pela prefeitura, ou por quem fosse). Menos ali. Elas viviam então, sob um tácito acordo de compreensão e respeito mútuo entre pessoas simples, que sabem o que é dificuldade.

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Senti como se as liberdades se espalhassem em ondas concêntricas, de forma análoga ao efeito produzido por uma gota caindo na água. Experiências avançadas irradiam ondas que se anunciam enquanto possibilidades, e afetam de forma sutil – ou não – o campo dos consensos estabelecidos. Reverberam transformações nas proximidades de onde atuam, ainda que não o saibam ou percebam.
É um exemplo simples, mas que demonstra a influência e o processo de construção de uma outra cultura política e de convivência, baseada em compreensão e respeito.
Por absurdo que pareça, nem mesmo a rua está ao alcance daqueles e daquelas que vivem à margem. Até para a garantia desse direito é preciso um esforço de resistência, calcado na fraternidade.

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Não é só de natureza material a mínima proteção que é ali conferida aos que vivem em situação de rua. Trata-se de cultivar a utopia e a luta em todos os seus aspectos. A marquise daquela precária casa possível aos excluídos é alicerçada na solidariedade daqueles que moram naquela ocupação urbana no centro. Não haveria nome mais acertado para ela: um viva à Utopia e à Luta!

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Porto Alegre, 15 de março de 2016

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