Não há “cultura” sem formação

cultura

 por Felipe Munhoz

 

A “cultura”, segundo o entendimento geral conferido pelo Estado Brasil, resume-se a dois significados/usos: a cultura como um conjunto de saberes, expressões e características de um povo, isto é, sua língua, sua dieta, suas formas religiosas, suas expressões artísticas, seus conhecimentos técnicos, etc., e a cultura como o conjunto de expressões artísticas de uma sociedade, quais sejam: a música, a dança, o teatro, o cinema, a artes plásticas, dentre outras.

A arte, que é do que se trata geralmente, quando falamos de “cultura”, tem sido tratada historicamente pelo Estado com uma importante ferramenta política. E não à toa, pois é uma das expressões mais fortes do vínculo de um povo com a sua terra, com a sua história e com os seus iguais.

Vivemos um período muito dramático da nossa história: estamos, enquanto povo, cada vez mais distantes das antigas tradições artísticas e de seus métodos de transmissão de conhecimento, que eram, basicamente, de caráter oral e autodidata; ao passo que, mais recentemente, já distantes dessas tradições, não nos foram dadas as ferramentas e os saberes necessários para substituí-las por ensinamentos artísticos disciplinados: aqueles transmitidos via formação escolar. O conhecimento artístico, portanto, foi sendo restrito às classes abastadas da sociedade, que detém o acesso às escolas de educação artística.

Em síntese, há duas imensas lacunas no que diz respeito da arte brasileira: a formação e os meios de divulgação. O papel do Estado (União, Estados e Prefeituras) nesse quesito é de se contrapor ao desequilíbrio gerado pela indústria da arte ao fornecer a formação artística e o espaço de divulgação democráticos para seus cidadãos.

Uma proposta: Criação de Centros de Formação Humana e Artística

O que é?

É um espaço de ensino e pesquisa em artes e humanidades, que congrega as mais diferentes expressões artísticas, tais como o cinema, a dança, o teatro, a música, as artes plásticas, a literatura etc. Um espaço que também deve ser de formação humana, devendo agregar discussões e pautas contemporâneas e históricas da sociedade brasileira.

Sua infraestrutura deve se assemelhar ao do Centro Educacional Unificado (CEU) ou como do Centro Cultural de São Paulo (CCSP), localizado no centro de São Paulo. Isto é, sua estrutura deve conter biblioteca multitemática, um salão para eventos, um teatro ou arena, uma sala de música, uma sala de artes plásticas e um estúdio de áudio e vídeo – todos devidamente equipados.

Quem irá construí-lo e financiá-lo?

A municipalidade deverá buscar consórcio com os entes públicos, estadual e federal, e requerer o apoio indispensável da sociedade civil, em forma de mutirões, incentivos fiscais, doações, etc.

Quem irá geri-lo?

A municipalidade deverá criar um órgão consultivo e um deliberativo os quais deverão gerir e administrar os Centros. Tais órgãos buscarão tornar os Centros imunes às variações políticas sazonais que possam, eventualmente, querer interferir em seus processos decisórios internos, ferindo assim seu caráter independente e autogestionável. Tais órgãos devem servir, assim, aos interesses inalienáveis da população local. Sendo assim, o orçamento destinado à pasta da Cultura deverá ser, necessariamente, discutido com os órgãos de deliberação e consulto dos Centros, que comporão a comissão orçamentária do município, seguindo as diretrizes que a legislação prescrever. O órgão de deliberação deverá ser composto de modo proporcional e paritário entre o poder público e a sociedade civil. Deve-se buscar, prioritariamente, representações que sejam compostas por todos os segmentos da sociedade de São Carlos, especialmente vinculadas às atividades de arte e educação artística, garantindo-se as representações dos segmentos marginalizados da sociedade, isto é, das mulheres, dos negros e dos LGBTS.

 

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